sexta-feira, abril 27, 2012

Palavras Quebradas III.




Sou uma pessoa profundamente superficial.

*

Ela tinha a beleza que era a eternidade no olhar.

*

Here today (meus olhos estarão sempre em você nesse momento).

*

Más notícias mamãe. Eu vendi minha alma ao diabo essa tarde. - Ah, é? Só agora?

Talvez.




Talvez, um dia, eu saiba o que quero. Hoje, tenho certeza que não.
Sinto apenas que nada disso me serve sem que, porém, soubesse o que serviria. Essa é minha certeza.
Sem saber que fazer machuco sem desejar, aos outros e a mim. Sabendo que as duas dores são imensas.

O amor que carrego de nada serve. A não ser como desculpa mal colocada que como mão insensível aprofunda a adaga no corpo já ferido. Sinto então que o melhor que faço é permanecer sozinho, para que a dor que eu cause seja no máximo a distância que imponho, não mais o fardo de ações incompreensíveis.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Mãaaaãe.



-Mãe! Acho que eu consigo parar de fumar maconha um dia.

Sua mãe ficou surpresa - sim, sabia que ele fumava maconha mas, mais do que isso, já haviam conversado várias vezes sobre a necessidade ou não do hábito, que terminava sempre com o consenso de supérfluo e, completava o filho, como tudo na vida.
Então, por que não?
De tal forma que aquela afirmação acabou por supreende-la. Sabendo que havia muita coisa ali fez-lhe a pergunta: Por que filho?

-Mãe, eu sou um cara que gosta das coisas, sabe?! Das coisas, essas coisas de ficar olhando, de ver passar, de ouvir uma musica, falar com alguém. Sou meio simples nos meus prazeres. E esses prazeres me fazem muito feliz, eu me considero uma pessoa feliz. Mesmo que as pessoas enxergem em mim essa carapaça durona, eu mesmo, pra mim, sou um homem feliz. E é legal isso. É gostoso.

E o bacana é que quando eu fumo, tudo isso que eu gosto e me dá prazer, ganha volumes, profundidades e texturas. É incrível.

Incrível. A perscepção da sensualidade das coisas. De como a vida é sensual, de que tudo nela é.
Além do corpo e da forma das coisas é possível sentir todos os volumes, se encantar pelas tantas formas, sentir toda a textura de prazer que encobre a vida inteira. Vislumbro a beleza perfeita: a forma bela em todo seu volume, profunda e encoberta de um toque sutil que dá sentido a toda ela.
Mais que apenas sensível, se percebe a vida sensual, prazerosa.

E ter entendido isso, mãe, faz com que a vida se reconfigure. Essa compreensão se expalha pelos dias, aumenta cada vez mais. Eu acho que você estava certa, que no final a gente não precisa de nada mesmo para entender a vida. Entende ela por que a vive.

-É filho, eu te disse!

-Eu sei mãe. Hum... mas não é possível né, você acerta por sorte!

-Você é que não dá o braço a torcer de que sua mãe é boa! Hahahaha...

-É, talvez, mas eu ainda não cheguei no final! Hahahahahaha...


terça-feira, setembro 13, 2011

Disposições.




Que fiquem claras minhas disposições finais.

Dado o fatídico fato não quero nem choro nem vela, nem uma faixa amarela. Quero uma verde. E outra vermelha, preta e dourada.

Que estejam cientes todos os presentes que escândalos, resmungos, lamentos e qualquer tipo de choro são proibidos. Qualquer tipo de infração à regra ficara a cargo de resolução por parte da segurança previamente contratada. Livres para a utilizar força física necessária, podem se valer, também, de tonfas e cacetes e muita pimenta no olho. Os seguranças estarão a postos.
O preto se não fica proibido não será tolerado em excesso. Pede-se no máximo uma peça nessa cor e, aviso feito, tênis conta como peça. Preto em excesso dá um clima mortuário a festa.

Haverá bebida suficiente para todos e é de bom tom que os presentes se valham ao menos 3 vezes das bebidas ou do contrário vão à casa do caralho!

Coroa de flores não são apreciadas e considera-se de extremo mal gosto. Encoraja-se a ao menos uma flor de jasmin branco recém-colhido das ruas à serem depositadas junto a cova, afim de combinar com a bermuda bege quadriculada e com os óculos escuros, sem camiseta, do ator principal .

Compromissos não podem ser desmarcados para o comparecimento.

Por fim se requer a cremação e posterior lançamento ao mar, praia, montanha ou deserto e em caso de impossibilidade imensa de acessar algum desses lugares são permitidos butecos consagrados de histórias contadas.

O epitáfio fica a cargo daqueles apaixonados por musica.

Sem mais,

VSO.


segunda-feira, setembro 12, 2011

Felon.


Daqueles homens corretos que era, não se corrompia. Era preto no branco e naquele mundo de cinzas ele estava fadado a destruição. Só precisou de um erro para perder tudo. Um único erro o jogou em queda livre. Que ele se recusava a resistir se para isso tivesse que se agarrar em qualquer tipo de sujeira. A velocidade só aumentou e ele morreu.

Homens como ele não tinham como durar muito tempo.


domingo, setembro 11, 2011

Fábulas.


Era uma outra história agora. Uma nova história.

Que se fez do nada vazio, mas para a Cachinhos Dourados que mergulhava cada vez mais fundo nela isso parecia pouco provável. Pensava nessa novidade como a continuidade de uma história passada que não fôra dela e da qual não fizera parte. Um passado que sujava seu presente e o qual lhe incomodava tanto que em algum momentos explodia. Sem controle.

A explosão própria também lhe incomodava, pois não se orgulhava dela, lhe fazia mal e não conseguia atingir o seu propósito. Seu alvo, o parceiro-escritor, nunca era atingido em cheio.

Nada parecia funcionar assim.

Mas dizia não saber fazer diferente e tentava acreditar nisso. Ele não acreditava. Sabia ter ela a coragem, mas teria a vontade firme para isso? Era um furacão. Ventos turbulentos rodopiando telhados e tempestades ao redor de um centro calmo e de céu limpo. E o que ela era realmente? Toda aquela tempestade ou o olho do furação silencioso?

*

Entre tantas calmarias e tempestades aquela foca acabou lançada por mil-ventos a uma praia distante. Um ilha deserta com água de coco e rede para se espreguiçar. Lá também tinha um urso pardo que vivia a bastante tempo por ali. Foi assim que eles se conheceram, quando a foca pediu para o urso trocar a lâmpada da choupana que suas nadadeiras não alcançavam nem permitiam trocar.



sábado, setembro 10, 2011

Sonho de uma noite de verão.


Em muitos sentidos foi um sonho. Um sonho de uma noite de verão.

Como em um conto de Kafka eu havia me transformado. Não em uma barata gigante, mas havia diminuído de tamanho, tinha agora centímetros de altura. De tal forma que fiquei invisível para todas aquelas pessoas atarefadas com seus afazeres diários.

Naquele cenário esfumaçado de um subúrbio coberto de névoa eu sabia que devia entrar em uma daquelas casas apertadas umas as outras, com suas fachadas sujas e velhas e seus habitantes ignorantes endurecidos por aquela vida dura e má, como eles. Sabia exatamente em que casa entrar e quem me esperava lá dentro, também na mesma condição. Assim fui direto, caminhando entre o lixo da rua e os pés que passavam sob aquelas cabeças que andavam voltadas para o chão, como a carregar todo o peso do mundo sobre seus ombros, sem sequer passarem perto de me ver, tão absortas que estavam em tantos problemas.

Chegando à casa não tive dificuldades em passar por debaixo da porta e chegar ao seu interior. Como que por teleporte eu estava sobre uma cama, em um quarto anexo a entrada, em uma porta a direita, e caminhava rumo a cabeceira onde se encontrava uma garota. Tinha a minha esquerda uma janela empoeirada que transformava a vida lá fora em um quadro móvel e cinzento, parecia esperar a tempestade de areia derradeira, à varrer tudo.

Chego à garota a muito conhecida e vejo seu rosto voltado para a janela. Ela não esboça nenhuma surpresa em me ver e tem medo em seus olhos. De pronto entendo seu medo: nossa transformação recente a assusta. Me deito ao seu lado e a entrelaço com meus braços, puxando sua cabeça para meu peito. Ainda assustada ela relaxa um pouco e permanecemos assim algum tempo. Sobre meu peito ela olha para a única janela do aposento. As figuras lá fora se movem pesadamente e a luz que entra, barrada pela poeira incrustada no vidro, é tão pouca que o quarto é todo penumbra. sem nunca deixarmos de olhar para a janela compreendo minha alegria com nossa transformação e o medo dela.

Fora do mundo que corre lá fora e através da janela me sinto livre e de volta ao lugar que um dia tive com ela. Algum canto escondido, pouco visível, onde não haja nada a não ser eu e ela, sem o céu tempestuoso e todo o peso que mantém as cabeças lá fora olhando para o chão sem que consigam enxergar seus próprios pés. O quarto, a penumbra, a separação bem marcada pelo nosso tamanho e pela janela cinzenta me deixam confortável para não me importar com mais nada fora daquele abraço. Se a estranheza da transformação me assusta em um primeiro momento, agora entendo ela como a possibilidade de viver novamente toda a estranheza do nosso passado. Diminutos permanecemos à margem do mundo lá fora, tendo apenas eu a ela e ela a mim. Ninguém nos vê, ninguém sabe de nos.

A mim me agrada e sei da perenidade da situação. De alguma forma sei que tal como menor ficamos, repentinamente ficaremos maior a qualquer momento. Pouco importa, importante é achar, mesmo que por mágica, esse lugar fora do mundo a muito perdido.

Olho novamente para a garota e a vejo aconchegada em meu peito. Seus olhos porem continuam com medo...

... em algum lugar acordo com todos os meus 1 metro e 70 centímetros esticados na cama.



sexta-feira, setembro 09, 2011

Palavras quebradas II.


Eu fico me perguntando o que eu estaria fazendo se tivesse sobrevivido a eu mesmo.

*

Vivendo a meia luz.

*
Bem.

Há coisas boas e más entre irmão.
Mas eles se amam, isso prevalece.



quarta-feira, novembro 24, 2010

Grande Guerra ao Mundo.


Ele era um velho soldado que lutou suas grandes guerras com ânimo e vigor. Vestido em seu uniforme de gala o oficial condecorado e altivo vivia agora sozinho em uma trincheira, para onde fora morar depois do final das hostilidades. Não havia onde se sentisse mais confortável que no abrigo de suas batalhas, mesmo que elas já estivessem cessado a algum tempo. A trincheira era sua casa. Passara tanto tempo em guerra que aquele rasgo no chão, como feito por baioneta divina, sustentado por madeiras úmidas e pelos corpos dos que morreram escorados àquelas paredes, era para ele o único lar. Apenas conseguia conviver com seus mortos camaradas de batalhas.

Dos obuses fez seus vasos para plantas, de canhões seus móveis e de esqueletos a muito esquecidos sua decoração viva, dormia sobre fuzis e metralhas e seu colchão era de munição antiga que já não se podia mais atirar. Tinha uma vida dura da qual não se envergonhava, era assim havia de ser para ele. Aceitava. Algumas vezes no sono sonhava em cores, campos distantes que não fossem malditos por tanto sangue derramado e corpos decompostos, cores vivas que não o preto, branco e verde musgo que tingiam tudo em sua trincheira. Acordava vendo em cores e desejava isso, após levantar da cama o sépia tornava, ele não se importava.

Sobre antigas peças de artilharia e blindados enferrujados haviam quadros de toda a família, e onde quer que fosse os via olhar para si. Se endireitava, mantinha posição, honrava aquela história, ela lhe dizia o que tinha de ser e lhe devia dar orgulho. Ele até se orgulhava, já não mais de tudo.

Vez por outras subia sua cabeça. Antes olhava ao redor com seu periscópio, para se certificar de que não havia inimigo. Punha então sua cabeça pouco acima do nível do solo. Procurava ligeiro, olhava ao redor. Algumas vezes alguém o encontrava, por mero descuido, seus olhos acostumados a procurar inimigos vez por outra não enxergavam uniformes diferentes e assim alguém conseguia se aproximar. Lhe causava estranheza e algumas vezes se admirava dessas pessoas e de seus uniformes distintos. Ficava surpreso consigo.

Rapidamente tornava à trincheira.
Seus olhos viam sempre no horizonte distante um vapor mostarda a se aproximar, veneno de morte para ele. Havia então de se esconder antes que chegasse. Nunca chegara, é fato, mas ele sabia estar lá fora, a sua espreita. Corria antes, não vacilava. Antes que pudesse morrer asfixiado punha sua máscara e retornava a trincheira.

Entre madeiras podres e corpos amigos ali era seu lar.



quarta-feira, outubro 20, 2010

Velho.

ou Ode à Fúria.



Sou ódio e pura aflição hoje.

Já são muitas noites. Essa, ordinária como tantas, não é diferente. Raiva. Aflição pura.

Sinto o peso dos anos sobre mim e estou velho. Antes dos trinta sinto um cansaço terrível, uma intolerância gigante, uma solidão negra. Depois de tão pouco tempo já não tenho mais saco e, hoje, hoje mesmo, não há nada que me renove o bom humor. Dia feio, inútil e degradante.
O sofá roubou de mim todas as forças e estacionei, escorrendo entre as almofadas como chorume preto e contaminando a vida lentamente, me espalhando em seu giro de 24h.

O ódio se assoma, cresce e pulsa. A solidão se instala como Aids. Minha raiva progride.

Puro ódio e aflição de tanto desencontro. Tanta partida sem sentido, essas rupturas incompletas de ligações diretas como de ladrões de carros batendo fios e fugindo desesperadamente do lugar onde o roubo teve início. Aflição dos olhos que não se encontram, propositalmente se desviam para o cansaço e o trabalho, e vivem a não ver a semelhança do outro, a mesma dor. Desses juízes e seus dedos em riste na minha cara, suas morais que caem sobre mim como seus martelos, suas sentenças cuspidas sem qualquer amor. Ódio da comunicação podre, um telefone-sem-fio imenso emaranhado em compreensões rasteiras, puro resgardar de si e medo.

Em pedaços volto para casa, para caverna lamber minhas feridas. Igual a ela é o caminho: quilômetros de frio, escuridão e uma garoa gelada, covarde e pequena. O caminho já o conheço a muito e continua com o mesmo sabor, um quadro claro da minha vida. Frio e um incômodo me perseguem o trajeto todo, a garoa escorre sobre mim e ameaça entrar por todas as frestas. Sem defesas contra seu ataque incessante ela entra, a tensão se aloja. Diminuo a cada quilômetro. Me apequeno cada vez mais. Definho e sem forças observo o caminho e guio mecanicamente, a moto me leva e vou escondendo minha consciência fundo onde a chuva e o frio não a possam alcançar. Meu corpo fica em tormento, torturado por essas facas frias líquicas que o tocam. Sem pressa o penetram lentamente. Tendo todos as milhas que precisam chegam aos ossos, os arranham, inscrevem neles sua marca de dor e lamento.

O tempo move o caminho: rua vazias, mortos de frio, alguns de fome e outros da água venenosa que cai do céu. Todos de violência. As luzes iluminam as ruas com sua pestilência, deixam tudo amarelo como um morimbundo. A degradação que se encena acena com um aviso: esse é o seu caminho!

Estaciono. Me levanto da moto e sinto escorrer água por dentro de mim. Pedaços de asfalto, pneu e lixo descem pelo meu peito, sujam meu coração.

Já no banheiro me olho no espelho, tomo coragem e me encaro, olhos nos olhos. Angústia. Outrora eu era um rosto bonito, moreno, um sorriso alegre, uma completa enganação. Agora apareço. Tenho a sujeira da rua na cara, os dentes pretos e serrilhados de remoer minhas dores, a pele grossa, olhos injetados de tanta fúria. O espelho me reconhece e sorri para mim. Meu lema ali escrito foi a muito apagado. Me desespero.

Passo a noite debaixo do chuveiro. A sujeira incrustada em mim encharca, amolece, tinge a água e não me solta. Pela manhã ainda permaneço sob o banho, já sentado no chão tenho a pele enrugada, as costas arqueadas, pernas tortas e vacilantes.

Estou velho e morrendo.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Mexican dream.


Se não fosse pela pequena faixa de terra aos seus pés ele pensaria estar voando. Havia um alto planalto atrás dele, extenso e elevado como a mesa dos deuses. As suas costas uma garota o abraçava, cabelos negros cortados curtos e pele branca, passara seus braços por baixo dos dele e o puxara pelos ombros. Encostara sua cabeça em seu ombro direito e permanecia de olhos fechados. Ele observava o pôr-do-sol e toda a planície que se descortinava a sua frente, tudo tão imenso, amplo, que parecia não ter fim. O próprio sol era maior do que tudo que já havia visto e só cabia naquela paisagem por que ela com certeza era infinita.

Tempo não havia, na terra dos sonhos não havia espaço para ele. E assim eles permaneceram demoradamente.

As planícies que se estendia eram multicoloridas, em alguns lugares douradas, em outras arenosas, com cactos e arbustos, rochas e pedras soltas e em outros lugares gramados. Tudo incrível e a cada momento que se olhava parecia ter mudado magicamente. Um encantamento cobria tudo através dos difusos raios solares do crepúsculo, deixava as cores mais vivas e móveis, flutuando frente aos olhos.

Em algum momento ele sentiu um sorriso, parecia um abraço líquido que escorria por suas costas. Ela abrira os olhos e sorria delicadamente. Quando se virou para vê-la já não estava mais lá. Como o vento ela descia a encosta que partia dos seus pés até a planície abaixo, correndo e saltando ladeira abaixo. Uma descida íngreme de terra vermelha que não o fez pensar outra coisa senão que era fatalmente perigosa. Instantaneamente venceu seu medo e se precipitou atrás dela, a viu olhar para trás, direto em seus olhos, e entendeu que não havia perigo. Ela continuava sorrindo enquanto descia desabaladamente aquele barranco e se podiam ouvir seus risos deixados para trás ao vento. Por mais que tentasse não conseguia alcançá-la e percebia que ela se divertia fugindo dele. Quando chegou a planície continuou a correr, ia e vinha em retas, quebras e círculos, dançando de olhos fechados era como uma fada naquela paisagem. Os dois riam, se divertiam com a brincadeira. Ela não se entregava a sua perseguição e ele não desistia de alcançá-la e assim percorreram toda aquela infinitude de paisagens.

Em algum momento daquele jogo e dança ele se aproximou dela, dançando como estava não o viu chegar. Na verdade ele sentia que ela já não se importava mais em fugir. Calmamente caminhou em sua direção fazendo de cada passo sua dança, havia apenas corrido até então, agora desfrutava da calma que ela tinha ao dançar em círculos. Segurou sua mão e a tomou para dançar, lentamente ia contendo seus movimentos. Estavam exatamente no meio daquelas infinitas paisagens e todas elas pareciam se voltar apenas neles naquele momento. Puxou-a para si e a abraçou carinhosamente, ela derretia em seus braços, flutuava como fada que era dançando ao ar livre. Uma leve brisa passou e ele pensou escutar o farfalhar de asas. Talvez as dela.

Ela respirou fundo e suspirou. Sem hesitar a beijou, ela retribuiu o afeto apertando-o contra seu corpo em um abraço quente e apertado. Definitivamente havia deixado de fugir.

O sol voltou a se movimentar e desceu rumo à escuridão, cumprindo seu destino de se pôr no horizonte distante. Lançou seus últimos raios quentes sobre os dois lhes dando tanto conforto que ali permaneceram. Em uma terra distante dali aqueles raios entraram pela fresta de uma janela, acordando um homem que dormia sorridente.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Palavras quebradas I.


*

"- Afinal, o que você quer? - insistiu.

- Parceria. Isso não tem nada a ver com sexo nem com romance, mas com outra natureza de afeto, ou de afetos. Eu quero um tipo de relação que não necessita de palavras nem de grandes gestos. Quero que a gente se entenda por música, no sentido figurado e no sentido literal. Quero um pianista que não abaixe a cabeça nem desvie os olhos quando estou cantando o amor, quero um olhar cúmplice, a solidariedade, a empatia, a generosidade, quero que você não tenha vergonha de sentir o que estou sentindo, e que você viva o que estou vivendo durante toda essa canção.

- Se é só isso, posso tentar...

- Este jogo não comporta tentativas. A única regra é se entregar."

*

Essa é a grande dificuldade: it’s hard to wait around for something you know might never happen; but it’s even harder to give up when you think it’s everything you want.

Já não quero mais mentir, não para mim não para você. Para ninguém. Eu não espero mais nada da vida, não almejo mais nada da vida que alcançar esse outro patamar de afeto. Claro que quero minha Harley, minha casa fresca e ensolarada, um trabalho digno e decente, uma vida honrada e com um pouco de conforto (não faço questão de muito, me sinto mais vivo com um pouco de destruição em mim), claro que quero. Mas não vou me desviar do caminho. Não! É uma questão de honra não me desviar, não sucumbir à fraqueza. A fraqueza asquerosa das justificativas pobres e medrosas que legitimem os atalhos malandros. Sim, por que é isso essa fraqueza, exatamente isso: covardia e comodidade.

Tenho que fazer meu trabalho, minhas obrigações, todas essas merdas que se tem que fazer, mas não permitirei que tomem espaços que não são seus.

Eu quero fazer da minha vida musica e arte, cotidianamente.

*

"É preciso lidar com a frustração e não deixar, em hipótese alguma, que ela se transforme em cinismo – se frustração é fungo, cinismo é ferrugem."

quarta-feira, agosto 18, 2010

Liz.


Ela olhava para o mar.

Do sul da cidade sentada no alto de uma colina que termina no mar pudera ver muito bem a maravilha que era Eilat. No entanto, naquele momento, era para o mar que se voltava. Aquela imagem preenchia toda a sua visão e o azul daquele mar parecia ser um azul que nunca vira antes. Era a própria cor azul feita líquida.

Ficara lá durante um bom tempo e estava sozinha havia o dia todo. Das 9 da manhã às 9 da noite. Nunca experimentara isso na vida e estava distante de tudo e de todos que conhecia, mais livre do que sequer chegou a pensar. Andara pela cidade e visitara lugares, sem muito falar. Sentia-se como uma fantasma a caminhar, observando pessoas e os lugares como que a não ser vista. No alto daquela colina essa sensação a tomara por inteira e fazia com que alcançasse uma quietude por dentro, uma plenitude silenciosa e sorridente que não transparecia, mas que a retinha com força. A solidão daquela sensação não era ruim, totalmente o contrário, era para ela o sentimento novo e intenso de ser apenas ela naquele momento. Afinal não havia mais nada. Não havia mais ninguém, não conhecia nada ali, não sabia falar aquela língua. Sem obrigações, sem horários, sem ninguém que esperasse que fizesse algo de alguma forma. Apenas Ela e a imensidão do mar. Imensidão que viu em si naquele momento.

Pensava devagar e sem pressa, se deixava levar por aquele novo sentimento completamente contemplativo. Lembrara da sua família, do seu cachorro, de sua casa. Dos amigos, dos esportes, faculdade. De seu ex-namorado. Ali nenhum deles parecia fazer sentido. Pareciam amarras.

Amava a todos com um amor verdadeiro e diligente, mas se sentia agora como um tanto sufocada. Seu novo tamanho fazia parecer que aquelas paredes a esmagavam. Seu pai e seu moralismo mal dissimulado. Sua mãe e sua vida de prós x contras de resultado igual à sujeição justificada e racionalizada. Seu irmão. Seu cachorro velho e doente. Dos amigos de amizades de horizontes restritos, profundidades questionáveis. Dos prazeres que rapidamente se tornam obrigações. Do seu ex-namorado.

Desse último não sabia o que pensar. Tinha amor por ele, um carinho fora do comum com certeza. De todos era o que parecia conhecer melhor quem ela era fora daquela vida pré-estabelecida, como ela se via naquele grande momento. Ainda assim se afastara dele e ele dela. De alguma forma era igual aos outros, ainda que bem, esperava muito dela. Ela não gostava disso, a oprimia, já tinha muito disso na vida. Isso acabou por afastá-la. Pensava se talvez o amasse ainda, de qualquer forma não tinha mais disposição para os esforços que um relacionamento exige. Sendo com ele, nada pequenos.

Mesmo assim ele voltava aos seus pensamentos. Como não queria combate e deixava-o vir. Pensava que ele se orgulharia de sua liberdade e compreensão, ele sempre esperou isso. Sorriria seu sorriso alegre com seus olhos tristes, passaria sua mão pelo rosto dela e ela fecharia os olhos. Ouviria-o dizer - Eu sabia. Sim, ele sabia! Como em outras vezes estaria certo quanto às expectativas e capacidades em relação a ela. Ela se admirava com isso e ficava assustada. Nunca compreendera essas certezas, o faziam parecer bobo, mas nem sempre ele errava. Não. Acertara muitas vezes que ela conseguiria coisas que sequer imaginava.

Pensou que ele deveria estar ali. Sim, ficaria em silêncio ao seu lado por todo o tempo e ela sentiria seu amor e se sentiria mais segura em sua presença. Poderia ver o orgulho nos olhos dele e sua felicidade. Mas não, sabia que não daria certo. Ele aprendeu a agir dentro dos limites que ela demarcou, mas sabia que ele gostaria de mais. Ela também gostaria por vezes, não sempre. Não sabia como agir. Seria um esforço estarem sempre bem lado a lado e ela já havia se cansado em dobro: ele se recusava a se cansar. Isso a atormentava. Como tinha um bom coração de verdade não gostava de injustiça qual fosse, mesmo que ele aceitasse e não se importasse também de verdade.

No final das contas a liberdade e compreensão de si que ela experimentara agora eram em algum sentido um presente dele, valores dele que ela pôde apreender e vivenciar naquele momento, se orgulhar de si. Mas a presença dele ali acabaria com tudo, a força que dele transbordava indicaria um caminho e além dele. Queria seguir em seu passo e direção, não na pressa em que ele se testava sempre mais e sem descanso. Ficou a pensar nisso.

Se levantou ainda olhando admirada o azul do mar. No alto de sua colina e de seus 20 anos não era mais uma garota agora. Deixou os pensamentos voarem em todas as direções por alguns momentos e os recolheu, ouvindo as vozes do vento, das ondas e da terra aos seus pés. Recebeu delas sua paz e se despreocupou. Fechou os olhos. Firmou os pés. Juntou as mãos. Segurou com cuidado seu coração. Seus lábios se moveram sem que se pudesse ouvir. Beijou o ar de olhos fechados, virou-se, sorriu e se foi.

Ali, pendurada no ar ficou: Shalom.

quinta-feira, julho 22, 2010

Negro.

(ou Pois já está na hora/mimos pra sereia/naquela noite/muita paz e esmeraldas/mesa num canto/La distancia y el silencio/até pra morrer/lágrimas negras.)


Começa o show e estou a frente de dois percursionistas. São os dois negros e tem olhos negros, sem branco, e como duas estátuas suas mãos acoitam seus tambores. As peles dos atabaques respondem e vibram, e com elas todo o ambiente vibra junto. Seus olhos continuam completamente negros, tão hiperdilatados que parecem não me ver, não me vêem, mas me atravessam sem que ao menos foquem em mim. Parecem olhar através do meu corpo, para além do meu corpo a me ver dançando os significados daquelas músicas. Nesse momento não tenho mais onde me esconder.

O cantor, um gigante louco germânico, continua dançante, inebriado em palco, e parece cantar para mim, também sem olhar. A falar das minhas estórias e dores continua a dançar e sorrir. Mesmo sendo estórias e dores dele também. Eles entendem completamente tudo que se passa em mim e a indiferença deles para os nossos sentimentos compartilhados me diz muitas coisas, me ensinam tantas outras. Passo a sorrir com eles.

Lembro de certas passagens e lembro-me de meu corpo vibrar. Realmente vibro e é como se a música pudesse tocar a mim como a um instrumento, a definir as notas certas para tudo aquilo. É uma mistura das próprias músicas e das letras que me conduz, cada uma a me agarrar por um braço e a me levar. Deixo-me ir quando sinto que "podría perderme en esta felicidad". Nesse exato momento.

Os atabaques continuam hipnóticos e intensos, as letras sussurram docemente a mim por horas; crianças e choros, rosas no mar, o que pesa e o que flutua, a paz e as esmeraldas. Sussurram e cantam intimamente ao meu ouvido, sussurros e canções que são pensamentos meus, musicados, bem cantados, muito bem interpretados. O tempo esta parado, dando tempo suficiente para apreciar cada palavra, nota e gesto. Mesmo quando tudo termina o relógio continua parado. Como um lago que continua a ondular depois do fim do vento continuamos, dançamos e fazemos nosso show. Até que não tenhamos mais força para ondular. Um olha para o outro e reconhece nele tudo que se passou consigo, ainda que de formas diferentes. Estou no lugar certo, no momento certo, com certeza ouvindo as palavras certas. Um mundo de significados e compreensão se abre, é o que penso naquele momento. Ao me dar conta de mim volto do infinito e vejo ao meu lado meus amigos e uma garota. Nessa noite fantástica é bem capaz que tenha sido assim; foi o que vi naquele momento.

sábado, julho 17, 2010

Vermelha.

Eu estava sentado na cama dela. Ela, em uma cadeira próxima a mim. Falava de seus casos e transas passadas, dos homens de que havia gostado e dos quais não. Falava daqueles que havia amado e daqueles que a haviam feito gozar. Eu ouvia atento, encostado entre a cama e a parede, apoiado em seu travesseiro. Uma faixa vermelha envolvia sua cabeça e me deixava com a impressão de que ela toda era Vermelho. A cor me lembrava outra, muito mais calma, serena, me lembrava sua pele escura e seu adorno rubro no pescoço. Era um tanto desconcertante.

Eu continuava a ouvir e falava um pouco. Olhava para ela e a ouvia falar com ânimo, a movimentar os braços, balançar as pernas. A via entusiasmada, falava de um, de outro, de suas emoções e de seus prazeres. Por vezes tive impressão de vê-la de olhos aquosos ao lembrar-se de alguém, a encobri-los com um sorriso, com a água dos olhos a equilibrar, tímida. Parecia que isso ela não queria mostrar, seus sorrisos eram meio felizes e ela continuava a se mascarar.
Ela precisava e continuou a falar, ainda sem perder o ânimo. Eu tentava, mas falava pouco e facilmente me perdia nas curvas da sua fala, a pensar se os soldados japoneses ainda lutavam a Grande Guerra na Indochina. Me esforcei e falava casualmente, a emocionei ao falar que se descobrir é difícil, mas esconder-se completamente é o apocalipse. Não lembro por que disse isso e não entendi o porquê dela se emocionar. Realmente a tocou.

Passamos a noite a conversar e ela falou de mim com carinho, ainda assim um tanto chateada. Pedi desculpas, não sei se ela aceitou, sorriu amarelo. Continuamos a conversar e eu já precisava ir embora, me perguntando o que fazer. Ainda sentia que ela queria se abrir, não propriamente comigo, mas ficava feliz que eu a ouvia. Eu me surpreendia com os sentimentos de que ela falava, ela os escondia muito bem cotidianamente e agora parecia ser outra pessoa. Parecia muito mais uma mulher com suas esperanças e aflições, cheia de sentimentos. Apesar de toda sua indiferença, pragmatismo, da falta de sentimentos com que se relacionava, apesar da sua solidão convicta (?), agora ela mostrava todo seu desagrado com isso (!). Ela sabia que agia assim e que agia assim por algum outro motivo que não sua estreita vontade. De alguma forma naquele momento ela confessava isso.

Eu precisava ir embora e disse a ela. Ela me disse que eu dormisse lá, respondi que tinha que ir e era verdade. Também era desconfortável me reconhecer um pouco no que ela falava. Vesti minha blusa, peguei minha mochila e me despedi. Alcancei a rua e o ar frio encheu meus pulmões, junto à noite avançada me trouxe um pequeno alívio. Busquei o último ônibus em direção a casa, esperando que ainda houvesse algum.

terça-feira, julho 13, 2010

Aviões.

3 a 1 e o Brasil faz 6 pontos. Alívio e um passo mais próximo de ser campeão.

Olho pela sacada de uma cobertura, penso em qual desses aviões você estará. De alguma forma sorrio. Muitos passam e eu já não sei em qual você esta. Lembro de você dizer que estará pensando em mim. Penso em nos ontem, foi bom estar com você! Lembro de você a me olhar, sei que você pensa o mesmo.

Mais um avião passa. Olho e me despeço, sei que demora para nos vermos. Te adoro por um momento e pego uma cerveja.

Agora parece fazer sentido: quem saberia de ontem, quem saberá de amanhã?

terça-feira, junho 22, 2010

Porquinho-da-Índia.

Ele sabia: ela gostava dele. E também entendia que não havia motivo para isso. Desde que ele se lembra nunca fora nada especial, e tão pouco se lembrava de ter feito algo que valesse tamanho carinho. Ele mal se lembrava quanto haviam se tornado amigos de verdade, tudo parecia a ele que já existia, não havia ao certo um começo mesmo havendo um tempo passado em que ela não esteve lá. Na verdade ele nunca conseguia pensar nisso por muito tempo, lhe causava enfado. Não havia importância pensar a respeito. Ela gostava dele, ele sorria por saber disso. A falta de motivo era para ele a grande graça, simplesmente aceitava.

Ela por muitas vezes o enchia de elogios, dos maiores aos menores. Sem por quês. Falava bem dele para as amigas e amigos, como se ele fosse alguém que valia a pena ser conhecido. Muitos deles e delas ele conheceu e ficou assustado com a imagem que tinham dele, ele sabia que era uma grande mentira mas ficava feliz por ter alguém que mentisse tão bem sobre ele. Tudo isso compunha um quadro de uma grande admiração mútua, por que o mesmo partia dele. Talvez ele falasse menos, com menos pessoas ao certo, mas só por que ele era patologicamente distante da maioria das pessoas. Tanto quanto era patologicamente próximo de algumas.

Ela muitas vezes ligava para ele, mandava alguns emails e musicas e fotos. Cuidava dele e muito se preocupava. E, muito mais do que ela gostava, bebia com ele. Ele era um intragável ostracista e ela uma bela e sociável mulher, gostava de lugares movimentados e tinha um bom coração para conhecer pessoas, mais do que para receber cantadas e ter admiradores, ela realmente gostava de conhecer pessoas. Mas permanecia ao lado dele em noites frias, sozinhos em bares e botecos, bebendo. Nunca conheciam ninguém e se alguém lhes acenava um sorriso encontrava lado ao lado ela com sua disposição para pessoas e ele com todo o seu desprezo. Discordavam em completo um do outro nesse sentido. Ele realmente gostava de manter qualquer um bem longe. Ela via graça nisso e bebia com ele, por vezes até fumavam juntos, e parecia que nisso eles se entendiam. Compartilhavam um com o outro seus prazeres, daí beberem tanto e fumarem um pouco. Daí sempre haver música entre os dois, em assuntos ou alto-falantes, mesmo que não concordassem quanto aos gostos ou estilos.

Eram como namorados sem que namorassem, no que saiam na frente de muitos relacionamentos. Ela mantinha a distância mais claramente e ele não se importava, brincava com a situação, ora mais brincadeira ora menos. Simplesmente pouco ligava pelo quer que fosse e fazia disso uma declaração, no que havia de muita verdade, e também uma grande brincadeira autodestrutiva, o tipo que ele mais gostava. Mas ele contava com a compreensão dela; sabiam eles que por meios diferentes diziam as mesmas coisas. Isso a mantinha por perto e isto bastava a ele.

Assim continuavam a beberem e a chorarem juntos e, ainda mais que os dois, a rirem juntos. Coisas que faziam mais e melhor quanto mais tardava a noite e se aproximava o dia e quanto mais se assomava a conta no caixa.

segunda-feira, junho 14, 2010

Tarde da noite.



É tarde da noite e minha cabeça gira. Gira rapidamente. Meu corpo todo permanece onde está mas minha cabeça realmente parece observar o mundo girar a minha volta. Em velocidade suficiente para me manter imóvel, mas ainda assim me incomodar. Fico apenas sentindo isso, como se eu merecesse.

Falo com ela, já faz tanto tempo.

Ela me diz de seus planos e da sua vida. Fala com alegria e certa indiferença. Eu sorvo cada palavra escrita por ela. Me diz de sua viagem e eu penso na minha, imediatamente em como largaria ela para poder acompanhá-la. Não tenho dinheiro para tanto, nem mais ímpeto (quero crer), e ela não acharia tão bom. Minha cabeça continua a girar, meu tornozelo dói e parece inchar cada vez mais. Parece que tudo quer me dizer como minha vida é pior que a dela. Ela é feliz, eu não. Ela é feliz sem mim, eu não sem ela.

A maldita tontura não passa, continua a me punir por sentir. Continuo a pensar em palavras para ela, desenhos, gravuras e fotos. Ainda penso em tocá-la, em seu corpo e alma. Ela continua tão bela.

Nada muda.

A cidade permanece em silêncio, todos dormem e apenas o jornal da noite traz um pouco de vida à sala. Assaltos, assassinatos e futebol. A TV parece irônica ao mostrar o mundo correndo lá fora. A TV sorri para mim e me diz da banalidade do meu drama e de suas próprias notícias. Ela insiste, é tudo igual. Ainda espero mais palavras, me controlo para não cometer os erros de sempre. Tenho que ser um robô, respostas programadas para não se excederem para mais nem para menos. É o papel que me reservo hoje.

Merda, robôs não sentem tontura e a minha não passa. Não passa e penso em uma cerveja. Pena não ter uma.

Volto a falar com ela e escolho as palavras com um cuidado cada vez maior, quanto mais eu penso mais tudo gira e parece escapar, zombaria pura do meu esforço babaca. Decido partir e me despeço. Tchau. Ela tchau. É isso. Rastejo até o filtro e bebo água, me dirijo à cama e apago a luz. Mesmo no escuro, e sozinho, tudo continua a girar.

quarta-feira, junho 09, 2010

Falava Pessoa e falava eu.



Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Que queres que eu faça, além de te amar, se isso é tudo que quero e nada mais tenho para dar? Como queres que eu te ame sem que te ame de todo se isso não posso evitar?

quarta-feira, maio 26, 2010

Três momentos.

Silêncio.

- Eu queria sentir com a intensidade que você sente. Da forma como você ouve musica, assiste aos filmes, saboreia comidas, gosta de mim...

- Deixa eu te ensinar como é?

- [Silêncio]

Não há o que fazer. Há apenas silêncio e contra ele nada posso fazer.

Você se mantém de tal forma distante que eu sinto já não te conhecer mais. E as coisas que você faz me provam que você já não se importa mais. É isso que temos.

Eu posso fazer algo para mudar isso? Não, sei que não. Depende de você e eu sei que não se importa em como as coisas estão. Se você deixasse eu te mostraria como isso me chateia. É uma opção tão errada que eu mal consigo pensar a respeito.

Tudo bem. Sem problemas.

Mas eu desisto. E eu sei que é isso que você quer.

Não vou ficar vendo você se afastar mais cada vez que me aproximo um pouco. Isso me cansa e eu não acho que você precise fazer isso. Mas é a sua escolha. Fiquemos com ela por pior que seja. Eu me engano? Acho que sim diria você. Pois é, mas você me dá provas constantes de que é diferente disso. Eu me engano de novo? Talvez sim, creio que não. Não importa. Vamos deixar claro uma coisa. Você escolhe o mundo que constrói a sua volta: escolhe me chamar de o homem mais forte do mundo, dizer que não encontra mais ninguém como eu, fechar os olhos quando minha mão encontra seu rosto, quase sempre usar o colar que eu te dei, continuar a chamar de um nome que é só seu, tantas coisas...

Você me engana? Eu não sei. - Não ..., só que essas coisas não significam o mesmo para mim e para você. Pode ser. Você escolhe dar ou tirar todo o significado de todas essas coisas. A Ruína não foi nada mesmo você me disse [eu gosto de me apegar a um monte de palavras sem muito sentido, não é mesmo?!]

Você escolhe o mundo que constrói a sua volta. Tantas coisas e você se afasta. É uma escolha. A sua estúpida escolha. Sim. Pois eu sei, sinto (para você entrar em desespero), que nada disso são palavras sem sentido como você quer me dizer agora. Não são para mim, claro, e também não são sem sentido para você. Okei, eu engulo. Me deixo enganar facilmente. Você também. Vai se enganando cotidianamente e não se importe. Talvez mesmo eu esteja aqui sempre. Talvez não. Cada um que faça suas apostas. Ou talvez você se engane tão bem que um dia nem perceba mais.

Mas não se importe, deixe tudo como esta. E quando um dia se perguntar: - Por que eu me afastei [e talvez até pense, eu nunca mais encontrei o que ele queria me oferecer]? Eu sei que você será verdadeira com você mesma, tal como é hoje, e dirá: - Por que eu não queria aquilo para mim. É demais.

Que assim seja. Tenho certeza que você não tem a menor dúvida quanto a essas respostas. É isso que você quer deixar claro a mim. Você sempre toma as mesmas atitudes. Então esta claro. Já sei. Arquemos com as certezas!

Eu construo o mundo que quero a minha volta. Tantas palavras sem sentido? Todas as palavras não tem sentido. Eu vivo cotidianamente dando sentido para elas. Palavras não tem sentido sem ações, mesmo que essas ações às vezes sejam apenas renovar pensamentos, escrever textos e janelas, ouvir músicas, se permitir aceitar o bom que lhe oferecem. Você sabe o que é isso, mas vai se enganando. Tenso? Rá, totalmente o contrário. Mais Leve que o ar, como um pássaro que voa por conta própria. Tensão? Você não se importa de ter apenas "tudo" aquilo que é permitido Jaime. Sim, tensão acostumada. Tá, eu acredito. Eu te ofereço um mundo, você se afasta por que é isso que tem que ser feito. Tudo bem, cada um constrói o mundo que quer para si. E você quer deixar claro que esse mundo você não quer.

Então eu me afasto. Quer ouvir? Eu desisto.

E não faço questão de te ver, por que eu não sei ser diferente do ... para você e não sei lidar com você como se não fosse a ...... Se meu amor não te faz bem nem te deixa confortável, não há por que. Se você precisa de um abismo entre nos, não faço questão. Minha casa não te serve, meus braços não te trazem conforto, minhas palavras te assustam, meus lábios queimam os seus, minha presença te deixa desconfortável, qualquer ação que eu tome te põe em defesa. A Ruína virou um monturo, sem flor nem beleza. Talvez nem essas palavras você compreenda.

- Sabia que eu continuei com o seu cheiro mesmo depois do banho? Huahuahua... O cheiro do meu cabelo me fazia lembrar de vc também!! Heuheuheuheu xD

Cada um constrói o mundo que quer.

Sem poema, nem música, sem flor, nem beijo, sem amor, só ruína, apenas

[Silêncio]

*

Tensão.

Você me disse um dia que nunca havia paz em minha vida e sorriu com aqueles olhos distantes de quem já foi embora. Talvez fosse verdade, eu pensei, enquanto te via se afastar. Naquele momento talvez fosse verdade!

Mas você não sabia que aquilo que chamava de tensão não podia ser chamado de forma mais errada. Tensão? Nããão: leveza. Para o passo seguinte à beira do abismo, para voar.

*

Verdade.

- Preciso lhe falar. Eu minto!
- ...
- Sim, sim, bastante.
- ...
- Mas não, para você nunca.
- ...
- Isso! Nem mesmo omitir eu omiti.
- ...
- Mas não é simples. Acho que tenho muito a lhe explicar. Talvez você entenda, sim, talvez você entenda.
- ...
- Calma, não menti a pouco, continua sendo verdade que nunca menti para você.
- ...
- Isso mesmo, nem mesmo omiti.
- ...
- É simples, na verdade. Difícil é de explicar. Você, certeza, consegue entender.
- ...
- Me dê um sorriso e deixe eu virar esse copo. De pronto começo a lhe explicar.
- ...
- Me repito novamente, sei, nunca menti para você. Mas nunca fui tão honesto comigo. Para mim menti sempre e muito.
- ...
- O que isso explica? Não sei ao certo mas talvez lhe sirva para entender, ou ao menos para pensar que sou louco. Não, definitivamente não.
- ...
- Concordo, sei que é estranho. Eu mesmo acho isso. Acordo sempre com essa estranha sensação. Mas acordo sempre assim.
- ...
- Permita que eu me apresente: esse sou eu para você e todas as palavras escritas ou faladas se tornam imediatamente verdadeiras, tão intensamente verdadeiras, que tudo isso passa a fazer sentido.
- ...
- Não me olhe assim, sei que te assusto e que você se assusta, sei que eu não devia e que você também não. Me desculpe. Eu te desculpo.
- ...
- Sim, eu mentia para mim mesmo. Mas que me importa eu mesmo?
- ...
- Sim, sorria! Fui muito mais feliz sendo verdadeiro para você.
- ...
- Se fui um homem falso para ser verdadeiro para você? Não, fui um homem muito mais verdadeiro com você.
- ...